Portela leva à Sapucaí enredo sobre herança negra no Sul do Brasil e o enigma do Príncipe do Bará

Portela leva à Sapucaí enredo sobre herança negra no Sul do Brasil e o enigma do Príncipe do Bará

16 de fevereiro de 2026 Off Por Marcelo Garcia

Portela aposta no Batuque e na negritude do Sul em desfile ousado na Sapucaí

Fonte: Redação (Boca do Rio Magazine) | Foto: Guito Moreto

Portela é a terceira escola a desfilar na Sapucaí com enredo inspirado no Batuque e na herança negra do Sul do Brasil, em uma fábula sobre o Príncipe do Bará.
Foto: Reginaldo Pimenta/Agência O Dia/Agência O Dia/Estadão Conteúdo

A Portela foi a terceira escola a entrar na Marquês de Sapucaí no domingo de Carnaval (15) apresentando o enredo “O mistério do príncipe do Bará — a oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”. A proposta levou para a avenida um recorte pouco explorado da história brasileira, destacando a herança negra no Sul do país a partir de uma fábula inspirada no Batuque, religião afro-brasileira de culto aos orixás predominante na região.

O desfile foi estruturado a partir do encontro simbólico entre dois personagens centrais da narrativa: o Negrinho do Pastoreio e o Bará, também identificado como Exú, orixá fundamental no Batuque. De acordo com o carnavalesco André Rodrigues, esses personagens dialogam ao longo do enredo para revelar fragmentos da identidade negra no Sul do Brasil, frequentemente invisibilizada na construção do imaginário nacional.

A comissão de frente chamou atenção pela proposta inovadora ao transportar o público para um ambiente tridimensional. Com uso de elementos cenográficos em 3D, os bailarinos encenaram a história do Batuque de forma imersiva, criando a sensação de que o espectador estava dentro de um grande livro que se abre na avenida. A concepção coreográfica foi assinada por Cláudia Mota em parceria com Edifranc Alves, que destacaram a intenção de aproximar o público da narrativa religiosa e cultural apresentada.

Ao todo, 29 bailarinos ocuparam a Sapucaí com um grande elemento cênico branco, que se transformava ao longo da apresentação, reforçando a ideia de resgate, memória e reconstrução histórica. A aposta em tecnologia e linguagem contemporânea reforçou a proposta da Portela de promover um desfile ousado, sem abrir mão da tradição e da força simbólica do samba.

O desfile contou com a interpretação de Zé Paulo Sierra, além do casal de mestre-sala e porta-bandeira Marlon Lamar e Squel Jorgea. A bateria, comandada por Vitinho, teve como rainha Bianca Monteiro, que conduziu a escola com carisma e presença marcante.

Com essa apresentação, a Portela reafirmou seu papel como uma das mais tradicionais e inovadoras escolas do Carnaval carioca, levando à Sapucaí uma reflexão sobre ancestralidade, religiosidade afro-brasileira e identidade negra fora do eixo historicamente mais retratado pelos desfiles.