
Comandante do Bope envolvido em operação com 122 mortes é exonerado no Rio de Janeiro
24 de junho de 2026Afastamento do coronel Marcelo Corbage foi publicado no Diário Oficial com efeito retroativo
Fonte: Redação (Boca do Rio Magazine) | Foto: Reprodução/PMRJ
A gestão de tropas de elite e o controle da letalidade em operações de segurança pública figuram entre os temas mais complexos da administração estadual. Quando ações policiais resultam em índices elevados de óbitos, a estrutura de comando passa a ser submetida a um intenso escrutínio por parte dos órgãos de controle, do Poder Judiciário e da sociedade civil. Nesses cenários, a rotatividade na liderança dos batalhões especiais costuma ser adotada como uma medida administrativa para readequar as diretrizes operacionais e responder aos questionamentos legais sobre a conduta dos agentes em campo.
Nesta quarta-feira (24), a Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro formalizou uma alteração de grande impacto em sua estrutura operacional. O Diário Oficial do Estado publicou a exoneração do coronel Marcelo de Castro Corbage do comando do Batalhão de Operações Policiais Especiais, o Bope. O ato administrativo apresenta validade retroativa ao dia 18 de junho e, embora a publicação oficial não externe os motivos que ensejaram o afastamento do oficial, a mudança ocorre na esteira dos desdobramentos de uma das ações mais violentas da história recente da corporação.
Investigação sobre câmeras corporais e lesões atípicas
O coronel Corbage esteve à frente da unidade de elite durante a chamada Operação Contenção, deflagrada no final de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha, localizados na Zona Norte da capital fluminense. A megaoperação, estruturada para desarticular a cúpula da facção Comando Vermelho, resultou em um saldo de 122 mortos, sendo 5 policiais militares e 117 indivíduos apontados pelo governo fluminense como criminosos. Apesar do expressivo número de óbitos e da apreensão de toneladas de entorpecentes e mais de uma centena de armas, o alvo principal da ação, o traficante Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, conseguiu escapar do cerco.

Os desdobramentos jurídicos da ação penalizaram a imagem da corporação após depoimentos prestados ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). O ex-comandante do Bope informou aos promotores que menos da metade dos policiais que participaram do confronto utilizaram câmeras corporais, sob a alegação de que a previsão inicial de seis horas de operação dispensava o transporte de baterias sobressalentes. O relatório técnico do MPRJ, contudo, apontou indícios de irregularidades graves em ao menos dois corpos, que apresentavam lesões por disparos efetuados a curtíssima distância e um ferimento por decapitação, culminando na prisão de cinco policiais do Batalhão de Choque por meio da Corregedoria.
“As movimentações de oficiais são atos puramente administrativos formalizados em boletins internos da Corporação”, limitou-se a informar a assessoria da Secretaria de Polícia Militar em nota.
Divergências táticas e a nomeação do novo comandante
Outro ponto de desgaste que envolveu a gestão de Corbage no Bope residiu na contradição pública de discursos entre a chefia militar e o Poder Executivo fluminense. Durante as oitivas com o Ministério Público, o coronel rechaçou a tese de que a tropa de elite teria montado uma emboscada ilegal na mata — tática conhecida na linguagem policial como “tróia”. A declaração colidiu frontalmente com a justificativa apresentada dias antes pelo governador Cláudio Castro, que havia defendido publicamente a estratégia de encurralar os suspeitos na região de vegetação da Serra da Misericórdia para mitigar os riscos aos moradores das favelas.
Para preencher a vacância na chefia da força especial, a Secretaria de Polícia Militar confirmou a nomeação do tenente-coronel Carlos Eduardo da Silveira Monteiro. O novo comandante assume a liderança do Bope com a missão de gerenciar a crise institucional e dar continuidade aos processos de auditoria interna determinados pela Justiça. Enquanto isso, o coronel Marcelo Corbage permanece à disposição do Comando de Operações Especiais, aguardando uma nova designação de função administrativa dentro do organograma da instituição militar do Rio de Janeiro.




