Leilão do antigo Centro de Convenções acontece nesta segunda (20) após uma década de impasses

Leilão do antigo Centro de Convenções acontece nesta segunda (20) após uma década de impasses

20 de julho de 2026 Off Por Marcelo Garcia

Nova tentativa tem lance mínimo reduzido e prevê abatimento de custos com demolição

Fonte: Redação (Boca do Rio Magazine) | Foto: Nara Gentil/Arquivo CORREIO

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Nesta segunda-feira (20), o cenário de abandono de uma das áreas mais valorizadas de Salvador pode começar a mudar. O terreno de 116 mil metros quadrados que abriga o esqueleto do antigo Centro de Convenções, localizado entre os bairros do Stiep e Jardim Armação, será levado a leilão pela segunda vez. O Governo da Bahia tenta colocar um ponto final em uma novela que se arrasta desde o desabamento parcial da estrutura, ocorrido em 2016. No entanto, uma apuração especial baseada em relatórios, editais e decisões judiciais obtidos pela reportagem do BNews Premium revela que o mercado enxerga o desfecho dessa história ainda muito distante.

Para esta nova tentativa, a gestão estadual estipulou um lance mínimo de R$ 137 milhões, valor que será revertido para o Fundo Previdenciário dos Servidores Estaduais (Funprev). O montante é ligeiramente menor do que os R$ 141 milhões pedidos no certame fracassado de março. Essa redução ocorreu porque o governo retirou do edital uma porção de 71 mil metros quadrados classificada como Área de Preservação Permanente (APP), atendendo a recomendações do Ministério Público da Bahia (MP-BA) e blindando o futuro comprador do ônus de manter um espaço sem potencial construtivo.

O desafio da desmobilização da carcaça

Quem arrematar o lote herdará a complexa missão de desmontar o que restou da antiga estrutura metálica em um prazo de até oito meses. O edital prevê a possibilidade de abater o custo desse serviço, estimado pelo Estado em R$ 54 milhões, diretamente no valor do lance vencedor.

“Esta é uma operação de alta complexidade, que exige planejamento detalhado, equipamentos de grande porte e gestão rigorosa de resíduos. O abatimento alivia o impacto financeiro inicial, mas a atratividade real do negócio continuará dependendo do que se poderá construir ali”, afirma André Tavares, vice-presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (Crea-BA).

Bastidores de uma longa batalha jurídica

Até chegar ao leilão desta segunda-feira (20), o governo estadual precisou destravar uma série de imbróglios nos tribunais. Logo após o desabamento, o imóvel foi penhorado pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT-5) devido a uma dívida de aproximadamente R$ 50 milhões com ex-funcionários da extinta Bahiatursa. O nó só foi desatado em 2024, após acordos de pagamento com cerca de 160 trabalhadores.

Paralelamente, uma disputa de posse emergiu entre o Estado e a Prefeitura de Salvador. Descobriu-se que cerca de 35% do terreno correspondia a antigas áreas verdes e vias públicas do loteamento Jardim Armação, pertencentes ao município desde a inauguração do equipamento em 1979, época em que os prefeitos da capital eram nomeados diretamente pelos governadores. O impasse histórico foi resolvido por meio de um acordo comercial: a gestão municipal receberá 35% do valor total da arrematação. Contudo, devido aos descontos da demolição, o Estado ficará com uma fatia líquida (cerca de R$ 35 milhões) menor do que a da própria Prefeitura (cerca de R$ 48 milhões).

A última e mais alta muralha é urbanística

Apesar de o preço do metro quadrado ser considerado atrativo por especialistas do setor imobiliário, o antigo Centro de Convenções enfrenta um obstáculo técnico severo determinado pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) e pela Lei de Ordenamento do Uso e da Ocupação do Solo (LOUOS). O terreno está classificado como Zona de Uso Especial (ZUE-12), uma blindagem jurídica que restringe a área estritamente a instalações com funções semelhantes às originais.

Como a LOUOS passou por revisão e aprovação recentemente, a janela para alterações rápidas se fechou. Na prática, grandes incorporadoras não podem erguer condomínios residenciais no local, que é o segmento de maior liquidez para investimentos desse porte. Advogados especialistas em leilões estimam que mudar esse zoneamento exigiria uma articulação política complexa e demorada junto à Câmara de Vereadores, o que pode arrastar o início de qualquer novo projeto na área por mais uma década. O leilão de hoje inicia mais um capítulo, mas o fim do impasse urbano parece longe de terminar.