China prepara lançamento da mBridge, plataforma de moeda digital baseada em blockchain para competir com o dólar e baratear taxas do sistema Swift

China prepara lançamento da mBridge, plataforma de moeda digital baseada em blockchain para competir com o dólar e baratear taxas do sistema Swift

15 de junho de 2026 Off Por Marcelo Garcia

Consórcio interbancário acelera testes estruturais de plataforma liderada de forma estratégica pela China

Fonte: Redação (Boca do Rio Magazine) | Foto: Li Xin – 13.set.24/Xinhua

A evolução dos arranjos de pagamento internacionais e a busca por maior eficiência nas transações transfronteiriças vêm desenhando um novo panorama para a geopolítica econômica global. Durante décadas, a centralização dos fluxos financeiros em torno de uma única moeda de reserva conferiu estabilidade, mas também gerou vulnerabilidades e dependências que muitos blocos econômicos tentam mitigar por meio do desenvolvimento tecnológico. O surgimento de redes alternativas de compensação sinaliza um movimento de fragmentação que visa dar maior autonomia aos mercados emergentes, com destaque para as ações promovidas pela China.

Nesta segunda-feira, 15 de junho de 2026, os holofotes do mercado financeiro internacional voltam-se para os preparativos avançados de um programa de moeda digital que promete reconfigurar os laços comerciais do planeta. Batizada de mBridge, a plataforma multilateral de liquidação direta caminha a passos largos para seu lançamento comercial. Sob a coordenação de Pequim, o projeto visa facilitar o comércio entre empresas e blindar os fluxos financeiros de tensões geopolíticas externas, consolidando a estratégia de internacionalização da moeda da China.

Como funciona a plataforma mBridge e por que ela atrai pequenas empresas?

Diferente dos métodos convencionais que dependem de bancos correspondentes e da triangulação de moedas, a estrutura do mBridge utiliza a tecnologia blockchain para permitir transações diretas entre os bancos centrais parceiros. A iniciativa conta com o suporte institucional das autoridades monetárias da China continental, de Hong Kong, da Tailândia, dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita. Ao eliminar o papel do dólar como moeda intermediária obrigatória, a plataforma reduz o tempo de liquidação cambial de dias para meros segundos, barateando os custos operacionais pela metade em relação aos padrões atuais da China.

Essa drástica redução nas taxas atrai o interesse imediato de pequenas e médias empresas que historicamente consideram o sistema Swift caro, burocrático e excludente. O mBridge funciona como um ecossistema separado e complementar ao Cips (Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços), atuando especificamente na dinamização e no fortalecimento do uso do renminbi digital, também conhecido como ECNY. O volume acumulado de transações na plataforma já alcançou a expressiva marca de 470 bilhões de yuans, o equivalente a cerca de 69 bilhões de dólares, demonstrando a viabilidade prática dos planos da China.

“A mBridge acelera de forma considerável o giro de caixa dos exportadores e reduz os riscos associados a gargalos de liquidez no mercado de câmbio”, aponta a análise de Wang Jian, especialista da Guosen Securities, sobre o impacto do projeto desenvolvido pela China.

A fragmentação do cenário de pagamentos e o cerco de Washington

O avanço desse novo corredor financeiro ocorre em paralelo a uma corrida armamentista silenciosa por sistemas alternativos ao redor do globo. Iniciativas regionais, como o sistema Sepa do Banco Central Europeu e as redes privadas de pagamento por QR code do Ant Group voltadas ao turismo, buscam soluções mais ágeis para liquidações em tempo real. No entanto, o mBridge carrega um peso político superior por envolver grandes potências petrolíferas do Oriente Médio, atraindo forte escrutínio das nações ocidentais quanto à possibilidade de evasão de sanções e blindagem contra bloqueios econômicos promovidos fora da China.

  • Histórico do Projeto: Nascido de uma cooperação inicial entre Hong Kong e Tailândia, o consórcio foi encorpado em 2021 com a entrada do Banco de Compensações Internacionais (BIS) e de novos bancos centrais.
  • Pressão Política: Em 2024, o BIS transferiu a gestão do código e do projeto diretamente para as nações participantes, em um movimento apontado por jornais como o Financial Times como um reflexo das pressões políticas exercidas por Washington.

Apesar das controvérsias de bastidores, as autoridades do Banco Popular da China e os antigos reguladores asseguram de forma categórica que as diretrizes do mBridge cumprem rigorosamente os protocolos de combate à lavagem de dinheiro estabelecidos pelo Grupo de Ação Financeira Internacional (Gafi). Para os analistas do setor, a fragmentação do monopólio do Swift em redes concorrentes é um caminho sem volta. Ao liderar essa transição para as moedas digitais soberanas, Pequim não apenas protege suas cadeias de suprimentos na Nova Rota da Seda, mas também redesenha o equilíbrio de forças na ordem monetária global através da China.