
Outubro Rosa: cuidar também é saber ouvir
7 de novembro de 2026O mês de outubro passou, mas o cuidado deve sempre permanecer.
Por Ana Lúcia Silva | Psicanalista e Psicoterapeuta
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Quando uma mulher conta que recebeu o diagnóstico de câncer de mama, quem está por perto costuma tentar animá-la. “Você é forte”, “Tenha fé”, “Vai dar tudo certo”. São palavras ditas com carinho, na esperança de aliviar um pouco a preocupação.
Mas, naquele momento, talvez ela não queira ouvir que precisa ser forte. Talvez queira apenas dizer que está com medo, sem sentir que precisa tranquilizar quem está ao seu lado.
O Outubro Rosa nos lembra da importância da prevenção, dos exames e do diagnóstico precoce. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 78.610 novos casos de câncer de mama por ano, entre 2026 e 2028. É um número que merece atenção, assim como a saúde emocional das pessoas que recebem esse diagnóstico.
Descobrir um câncer pode mexer com muita coisa. Surgem preocupações com o tratamento, a família, o trabalho, as mudanças no corpo e os planos que pareciam tão certos até pouco tempo atrás. E nem sempre é fácil falar sobre tudo isso.
Algumas mulheres preferem conversar abertamente. Outras precisam de silêncio, de tempo ou simplesmente de um dia em que ninguém pergunte sobre a doença. Há também quem esconda a própria preocupação para proteger os filhos, o companheiro ou os familiares. Às vezes, quem mais precisa de apoio acaba tentando cuidar emocionalmente de todo mundo.
Uma revisão científica publicada em 2026, que reuniu 32 estudos com mais de 21 mil pacientes com câncer de mama, encontrou prevalências estimadas de ansiedade e depressão. Isso não significa que todas as mulheres desenvolverão esses problemas, mas mostra por que a saúde mental precisa fazer parte do cuidado, durante e depois do tratamento.
Sentir medo não significa perder a esperança. E ter momentos difíceis não diminui a coragem de ninguém.
A família também vive suas preocupações e nem sempre sabe como ajudar. O importante é entender que apoiar alguém não exige encontrar uma resposta para tudo. Às vezes, perguntar “O que posso fazer por você hoje?” é mais útil do que oferecer conselhos.
Pode ser uma companhia para uma consulta, uma ajuda com as tarefas de casa ou uma conversa sobre qualquer outro assunto. Afinal, a mulher que enfrenta o câncer continua tendo interesses, desejos e uma vida que não se resume ao tratamento. Ela pode querer falar sobre a doença hoje e, amanhã, preferir conversar sobre a próxima viagem, um filme ou alguma coisa engraçada que aconteceu.
O acompanhamento psicológico também pode ajudar a compreender os sentimentos que surgem nessa experiência. Não para ensinar alguém a pensar positivo, mas para oferecer um espaço onde seja possível falar sem precisar proteger os outros das próprias emoções.
Neste Outubro Rosa de 2026, precisamos olhar ainda para uma realidade preocupante. O INCA destaca as desigualdades raciais no câncer de mama. No Brasil, mulheres negras recebem, com maior frequência, diagnósticos em estágios avançados. Isso mostra que não basta incentivar o autocuidado. É necessário garantir que todas tenham acesso aos exames, ao tratamento e a um atendimento digno.
Cuidar da saúde não pode ser uma responsabilidade que cada mulher precise carregar sozinha.
Também não existe uma única maneira de enfrentar o câncer. Algumas mulheres se reconhecem na palavra “guerreira” e encontram força nela. Outras não gostam de ser chamadas assim. Cada experiência é diferente, e respeitar essas diferenças faz parte do cuidado.
O Outubro Rosa é uma oportunidade para falar sobre tudo isso. Sobre informação, acesso à saúde e tratamento, mas também sobre o que acontece emocionalmente com quem recebe um diagnóstico e com as pessoas que estão ao seu redor.
Se você convive com uma mulher que está passando por essa experiência, procure estar presente sem cobrar dela uma reação específica. Se ela quiser conversar, escute. Se preferir falar de outra coisa, respeite. E, se disser que está com medo, não tenha pressa de convencê-la do contrário.
Nem sempre conseguimos aliviar a dor de alguém. Mas podemos evitar que essa pessoa se sinta sozinha com o que está vivendo.
Ana Lúcia Silva | Psicanalista e Psicoterapeuta
Cuidar da sua saúde mental também é uma forma de cuidar da sua vida. Agende seu atendimento online e encontre um espaço de escuta, acolhimento e reflexão para enfrentar os desafios do presente com mais equilíbrio e segurança.
Referências
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2026–2028: incidência de câncer no Brasil. Dados oficiais sobre câncer de mama, com estimativa de 78.610 novos casos anuais.
Consultar publicação oficial - Instituto Nacional de Câncer (INCA). Controle do câncer da mulher negra é destaque do Outubro Rosa 2026. Publicado em 27 de outubro de 2026. Aborda as desigualdades raciais, o diagnóstico em estágios avançados e as barreiras de acesso à saúde.
Consultar publicação oficial - Prevalence and Influencing Factors of Anxiety and Depression in Patients With Breast Cancer: A Meta-Analysis (2026). Revisão científica de 32 estudos, envolvendo 21.507 pacientes com câncer de mama, sobre a prevalência e os fatores associados à ansiedade e à depressão.
Consultar estudo no PubMed - National Cancer Institute (NCI). Emotions and Cancer. Publicação sobre as diferentes reações emocionais ao câncer, a importância do apoio psicológico e o respeito à maneira como cada pessoa enfrenta o diagnóstico e o tratamento.
Consultar publicação - American Cancer Society. Being a Friend to Someone With Cancer. Orientações sobre escuta, apoio emocional, respeito às escolhas e maneiras práticas de ajudar uma pessoa com câncer.
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