Perícia da Polícia Federal aponta histórico de problemas ocultados e falhas na execução de protocolos de segurança
Fonte: Redação (Boca do Rio Magazine) | Foto: INC/DITEC/PF
Um laudo exclusivo da Polícia Federal (PF) referente à queda do avião da Voepass, ocorrida em Vinhedo (SP), revelou que a tripulação da aeronave já enfrentava falhas recorrentes no sistema pneumático de degelo antes da tragédia que vitimou 62 pessoas. Os dados extraídos do gravador de voz e de dados de voo mostram que os alertas de mau funcionamento se repetiram em ao menos quatro viagens consecutivas, sem que as irregularidades fossem formalmente registradas pelas tripulações anteriores.
Durante o trajeto, ao notar o acúmulo de gelo e a falta de resposta dos equipamentos de proteção, o comandante desabafou com o copiloto sobre a ineficiência do mecanismo. Segundos depois, a aeronave entrou em perda de sustentação (estol), seguida por uma queda em parafuso.
“Essa b** não tá funcionando, né?”, afirmou o piloto ao constatar que o sistema pneumático não respondia aos comandos em uma zona de congelamento severo.
Diálogos na cabine e falhas de protocolo
A reconstituição da perícia criminal demonstra que a mensagem AIRFRAME FAULT — indicador de pane no sistema pneumático de degelo — foi registrada oito vezes no voo anterior ao acidente. Em todas as ocasiões, a tripulação realizou procedimentos de “reset” manual para tentar restaurar o serviço, em vez de reportar o problema no diário de bordo.
A omissão do registro permitiu que a aeronave continuasse operando. Segundo a Lista de Equipamentos Mínimos da aviação comercial, o avião estaria proibido de decolar em rotas com previsão de formação de gelo caso a falha intermitente estivesse documentada. A PF também destacou que a tripulação não cumpriu os manuais do fabricante, que exigiam a saída imediata da altitude de congelamento ao primeiro sinal de defeito.
Alertas no voo: Acionamento de avisos de desempenho degradado, aumento de velocidade, estol e Pull-Up (proximidade do terreno);
Omissão de registros: Falhas em quatro voos seguidos deixaram de ser anotadas nos diários formais;
Janela de reação: Peritos identificaram cerca de 20 segundos entre o alerta de velocidade e o início do parafuso;
Despacho irregular: Aeronave decolou também com defeito no limpador de para-brisa sob previsão de chuva no destino.
Responsabilização criminal e indiciamentos
Diferente das análises preventivas conduzidas pelo Cenipa, o inquérito conduzido pela Polícia Federal busca apurar a responsabilidade penal pela tragédia. A investigação apontou que a combinação de panes conhecidas, a decisão de voar em área de gelo severo e a não observância dos manuais de emergência romperam as barreiras de segurança do voo.
O relatório final da PF deve ser concluído nesta semana. A apuração indica que este será o primeiro acidente na história da aviação comercial brasileira a culminar no indiciamento criminal dos envolvidos na cadeia operacional e de despacho da aeronave.
Causa combinada: Falhas de equipamento, condições meteorológicas adversas e descumprimento de manuais operacionais.
Desdobramento jurídico: Conclusão do inquérito prevê indiciamentos por responsabilidade penal.