Especialista em saúde mental avalia impactos das novas leis trabalhistas e o fim da escala 6×1

Especialista em saúde mental avalia impactos das novas leis trabalhistas e o fim da escala 6×1

4 de junho de 2026 Off Por Marcelo Garcia

Atualização da NR-1 e votação na Câmara dos Deputados acendem alerta para o esgotamento corporativo

Fonte: Redação (Boca do Rio Magazine) | Foto: veja.abril

O mercado corporativo brasileiro passa por uma das transformações mais profundas de sua história recente. Em uma semana marcada pela entrada em vigor da nova Norma Regulamentadora Nº 1 (NR-1) e pela expressiva aprovação na Câmara dos Deputados do projeto que visa extinguir a escala 6×1, as discussões sobre os limites físicos e emocionais do trabalhador ganharam os holofotes. Para a jornalista e especialista em saúde mental no trabalho, Izabella Camargo, este momento representa uma verdadeira revolução nas relações trabalhistas ao colocar o bem-estar psicológico e os riscos psicossociais no centro das estratégias de gestão das empresas.

De acordo com a especialista, o modelo tradicional de segurança ocupacional — focado exclusivamente em prevenir acidentes físicos ou isolar riscos químicos e biológicos — tornou-se obsoleto diante da realidade atual do mercado. A nova roupagem da NR-1 valida o fato de que fatores invisíveis aos olhos, tais como o assédio moral, a desorganização interna, a cobrança desmedida por metas e a sobrecarga diária crônica, possuem capacidade real de adoecer o corpo técnico e comprometer de forma direta os índices de produtividade de qualquer companhia.

Como o fim da escala 6×1 se conecta à prevenção do Burnout?

A histórica pressão popular e parlamentar pelo fim da escala 6×1 conversa em linha direta com os novos parâmetros de saúde coletiva preconizados por médicos e terapeutas ocupacionais. Izabella Camargo ressalta que as corporações que manifestam severas dificuldades técnicas em se adaptar à ausência da escala 6×1 provavelmente necessitam realizar uma auditoria interna urgente em seus próprios desenhos organizacionais. A solução definitiva não reside no esgotamento da força humana, mas sim na redistribuição inteligente de tarefas, na mitigação de ociosidades e na estruturação de jornadas de trabalho que prezem pelo equilíbrio biológico.

Ao analisar o crescimento galopante dos diagnósticos de esgotamento profissional, a especialista busca desmistificar os preconceitos associados à condição clínica. “A síndrome de Burnout é um freio, não é o fim”, pondera. O esgotamento extremo atua como um severo mecanismo de defesa do organismo humano, um sinal biológico nítido de que o ecossistema profissional carece de uma gerência preventiva de riscos emocionais. Ignorar reiteradamente os alertas emitidos pelo corpo pode acarretar desfechos trágicos e de alta gravidade, evoluindo para episódios de Acidente Vascular Cerebral (AVC), infartos agudos do miocárdio ou agravamentos de quadros depressivos severos.

O desafio estatístico e o papel das lideranças no futuro do trabalho

Os indicadores globais de saúde mental sinalizam que o desafio corporativo assumirá proporções ainda maiores nos próximos anos. Dados epidemiológicos apontam que cerca de 20% da população brasileira convive atualmente com algum nível de sofrimento ou transtorno psíquico. Projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, até o ano de 2030, a depressão se consolidará como o principal e mais oneroso problema ocupacional em escala global.

Nesse panorama complexo, a perpetuação de lideranças autocráticas, a complacência com o assédio vertical e a desorganização crônica figuram como os principais vetores de afastamento médico. A especialista emite um aviso contundente: gestores, diretores e até mesmo colaboradores que optam por negligenciar, ironizar ou minimizar as políticas de amparo emocional correm o sério risco de se transformarem em agentes ativos de perigo dentro das organizações. A essência prática das novas diretrizes governamentais e a derrocada da escala 6×1 não miram na punição desenfreada das marcas, mas sim no fomento de uma cultura preventiva onde gerenciar o capital humano signifique, antes de tudo, evitar que os incêndios emocionais sequer comecem.