Polícia Federal apura a legalidade de repasses milionários e origem de recursos ligados a Virginia

Polícia Federal apura a legalidade de repasses milionários e origem de recursos ligados a Virginia

4 de junho de 2026 Off Por Marcelo Garcia

Relatórios de inteligência financeira do Coaf apontam transações atípicas em empresas de influenciadora

Fonte: Redação (Boca do Rio Magazine) | Foto: Reprodução| Instagram

O universo das grandes celebridades digitais e do mercado de influenciadores no Brasil foi sacudido por revelações bombásticas no campo jurídico e fiscal. A influenciadora digital e empresária Virginia Fonseca está no centro de uma apuração conduzida pela Polícia Federal (PF). A investigação ganhou corpo após Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), emitidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), apontarem uma série de movimentações bancárias classificadas como “atípicas” em contas correntes ligadas diretamente à criadora de conteúdo e às suas corporações associadas.

As informações detalhadas vieram a público por meio de uma reportagem investigativa assinada pelos jornalistas João Batista Jr. e Alessandra Medina, publicada pela Revista Piauí. Os documentos sigilosos que baseiam a apuração foram analisados tanto pela equipe de reportagem quanto pelos parlamentares que integram a CPI das Bets no Senado Federal. O foco do procedimento investigativo é checar a estrita legalidade das operações, mapear a real origem dos montantes recebidos e identificar se houve a prática de crimes como lavagem de dinheiro, sonegação fiscal ou outras infrações contra o sistema financeiro nacional.

Quais são as principais suspeitas sobre a Talismã Digital e a Wepink?

De acordo com o levantamento dos RIFs, a primeira grande linha de suspeita recai sobre a Talismã Digital, agência que pertence a Virginia e ao seu companheiro, o cantor Zé Felipe. Entre os meses de março e setembro de 2024, a firma registrou a entrada de R$ 22,4 milhões, dos quais R$ 21,4 milhões foram transferidos via Pix. O ponto que acendeu o alerta do banco Santander foi o fato de que a principal depositante, a empresa AMP Pay Marketing — responsável pelo envio de R$ 17,7 milhões —, está registrada sob o regime tributário do Simples Nacional, cujo teto de faturamento anual permitido por lei é de R$ 4,8 milhões, além de funcionar fisicamente em um modesto box comercial na cidade de Itajaí, em Santa Catarina.

A segunda vertente da investigação mira os fluxos de caixa da Wepink Suplementos Nutricionais. Um relatório do Mercado Pago enviado ao Coaf apontou que, entre janeiro e março de 2025, a conta da marca movimentou R$ 43,6 milhões em créditos e R$ 43,5 milhões em débitos, valores considerados incompatíveis com a receita mensal declarada pela empresa. Adicionalmente, o Banco Itaú notificou 190 transações consideradas suspeitas realizadas pela Savi Cosméticos S.A. (razão social da Wepink), que totalizaram R$ 502 mil depositados em dinheiro vivo por meio de caixas eletrônicos pulverizados. Para os órgãos de controle, esse tipo de fragmentação em espécie é um forte indício de tentativa de ocultação de faturamento real ou disfarce de valores ilícitos.

O que diz a reportagem sobre as origens da marca e a defesa da influenciadora?

A reportagem da Revista Piauí trouxe ainda revelações polêmicas sobre a gênese da marca de cosméticos que hoje fatura cifras bilionárias. Antes de se associar a Virginia, o negócio foi estruturado pelos empresários Samara Martins e Thiago Stabile através da rede Pink Lash, fundada em 2017. O aporte financeiro inicial para a criação daquela rede, no valor de R$ 800 mil, teria sido realizado por Karen de Moura Tanaka Mori, apontada pelas investigações policiais como a “Japa do PCC” e viúva de um antigo líder de facção criminosa. Posteriormente, em 2021, o casal se aproximou da influenciadora e do empresário chinês Chaopeng Tan para fundar a Wepink, momento em que Karen foi afastada do arranjo societário. Sob o comando da imagem da celebridade, a marca atingiu o faturamento recorde de R$ 1,3 bilhão em 2025, enfrentando também problemas jurídicos como um acordo de R$ 5 milhões com o Ministério Público de Goiás por falhas de entrega.

Diante do peso das acusações e dos dados expostos, a equipe jurídica que representa os interesses de Virginia Fonseca agiu prontamente para reater a normalidade dos fatos. O advogado Felipe dos Santos de Paula assegurou que todos os valores que ingressaram nas contas da Talismã Digital correspondem estritamente a cachês de campanhas publicitárias legítimas, todas devidamente amparadas por contratos comerciais e notas fiscais declaradas ao Fisco. A defesa explicou também que a antecipação de recebíveis de cartões é uma ferramenta padrão de mercado. Quanto aos depósitos em dinheiro vivo na Wepink, o advogado Dalmo Jacob do Amaral Jr. justificou que os montantes são provenientes do faturamento diário em espécie dos quiosques físicos da marca instalados em shopping centers pelo Brasil, o que justifica a fragmentação dos depósitos diários feitos pelas equipes de vendas.